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A noite é de todos os loucos

por Khaleesi, em 19.09.15

Sobe a rua em passo firme e sincronizado, elegante como a mãe lho ensinara. Sorri maliciosamente com a memória que lhe assalta o pensamento da sua passada progenitora, questionando-se acerca do que esta pensaria se a observasse naquele instante. Pouco lho importava, na verdade, mas o prazer de a imaginar horrorizada era superior ao asco com que aprendera a avaliá-la. Solta uma gargalhada profunda, fruto de uma enorme frustração acumulada a um sentido de humor conturbado. A noite devolve-lhe o som, num eco que só podia significar algo: a madrugada deixara-a a sós consigo mesma, entregue à mente delirante de que era proprietária.
Retira da mala a garrafa de whisky que andara a bebericar e, com a outra, acende o cigarro que guardara durante toda a noite para aquele cenário. Tornara-se bastante íntima do frio impiedoso de Janeiro e, embora não o quisesse admitir nem para si, cortava-lhe a pele ao ponto de ter de morder os lábios para não chorar. Se há coisa que aprendera, é que nada no mundo era motivo suficiente para ceder a um pranto desgostoso. Merda, se ao menos tivesse aceite o convite do homem por quem se cruzara, convidando-a a tomar um copo, poderia ter, naquele momento, uma cama quente onde repousar. Bem sabia de que modo teria de pagar tamanha gentileza camuflada e, embora jamais se tivesse imaginado em tal posição, o desespero e medo haviam-lhe apresentado toda uma nova perspectiva acerca da vida. O corpo é um preço justo a pagar quando a moeda de troca se trata da chance de acordar para um novo dia. Um corpo é apenas um corpo quando já tudo o resto nos foi corrompido.

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2 comentários

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De liz collingwood a 19.09.2015 às 12:41

um insónia inspiradora? está fantástico! :)
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De Emy a 19.09.2015 às 20:53

Muito obrigada tropa, por tudo :')

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